O lanchinho da discórdia

Não tem jeito, o povo gosta é de babado, confusão e gritaria.

Uns diziam:

“Taca fogo, Larissa!”

Well, well, well… Estava na hora de o blog fazer jus ao nome SEM ACESSO. A história de hoje é tão pitoresca e, ao mesmo tempo, tão comum, que inspirou a criação deste espaço virtual. Percebi que escrever e falar sobre ela fazia de mim uma cidadã extremamente feliz por ter coragem de contestar certos “absurdos”. Ficar constrangida era coisa do passado.

Antes de mais nada, saliento que eu não fiquei sapateando virtualmente e “procurei os meus direitos.”

Pois bem.

Era uma quinta-feira, como qualquer outra, e o pessoal lá da firrrrma resolveu fazer um happy hour. Como somos famintos, escolhemos uma famosa hamburgueria localizada no terceiro piso de um shopping no centro de Joinville. Estávamos felizes.

Aquela fome das 19h

#partiu

Chegando por lá, uma bela surpresa: o acesso mais próximo à famosa hamburgueria localizada no terceiro piso de um shopping no centro de Joinville é, após estacionar o veículo no terraço do shopping localizado no centro de Joinville, o elevador que desce até o terceiro piso. Mas, eis que surge, em uma nuvem de fumaça, um vigia avisando – aos meus amigos, porque tem gente que acha que sou surda também – que o elevador estava “estragado”.

“Estragado” há várias semanas.

Aff!

Eu tinha 3 opções:

a) Jogar coquetel molotov no shopping;

b) Enfrentar escadas com uma procissão atrás de mim;

c) “Despertar” a rainha que existe em mim e ir de “cadeirinha”.

Como todos estavam com fome e não tinha coquetel molotov no carro naquele dia, resolvi encarar a tal “cadeirinha”:

Jonas e Jarbas, os vassalos

Jonas Harger e Jarbas Antônio Cecyn: os vassalos do dia

Ué, era o jeito. Além do mais, é divertido observar as pessoas ao redor: pescoços torcidos e aqueeele pensamento “tadinha, deve estar passando mal!”

Minha senhora: o nome disso é falta de acessibilidade.

Chegamos à famosa hamburgueria localizada no terceiro piso de um shopping no centro de Joinvillefizemos nossos pedidos e o happy hour teve seu perfeito andamento.

Já quase na hora de dar tchau ir embora, resolvi ir ao banheiro. É, ir ao banheiro.

O que eu não imaginava é que seria um momento dramático. Aconteceu aquele momento em que todos olham ao redor, e ouvi:

ih, banheiro é só lá no mezanino!

ãhn? Não tem aqui embaixo?

Perguntamos a um garçom, que foi categórico: “só no mezanino!”

Nota: O mezanino é separado do “térreo” por uma escada de dois lances, com degraus altos e lisos. Até tentei subir, mas desisti.

Eu já havia ido à famosa hamburgueria localizada no terceiro piso de um shopping no centro de Joinvillemas nunca pensei em ir ao banheiro. Mas naquele dia precisei. Precisei e não pude ir.

Fui para casa verde furiosa.

Não era possível!!!! Como conseguiram abrir um estabelecimento de alimentação em um shopping no centro da cidade em que o único acesso ao banheiro é através de DOIS LANCES DE ESCADAS?

Passei um dia pensando e amargurando, quando resolvi agir. Ninguém me impede de ir ao banheiro e fica impune.

Mandei um e-mail, cheio de saaangue nos olhos, ao restaurante e perguntei se era isso mesmo. Um tempo passou e, eis que recebo a resposta do estabelecimento, assinada pelo o Sr. X*.

O sr. X respondeu pedindo desculpas pela falta de comunicação entre os funcionários, que deixaram de me avisar que o shopping conta com um banheiro no terceiro piso do shopping. Acrescentou que, justamente por o shopping contar com aquele tal banheiro lá fora e, o restaurante ser pequeno (?), é que optaram, no projeto da construção, pela opção do banheiro lá fora e outro no mezanino. O motivo do banheiro no mezanino é, ipsis litteris: “Evitando assim que esses clientes precisassem descer as escadas.”

Confesso que não sabia da existência de um banheiro no terceiro andar do shopping no centro de Joinville. Perguntei a alguns amigos e descobri que fica NO OUTRO LADO do corredor.

Ou seja: se você precisa ir ao banheiro e não puder subir as escadas do mezanino, saia do restaurante e procure pelo banheiro do shopping, que fica no outro lado do corredor.

Como não curto obrigar minhas amigas a frequentar banheiros comigo, imaginei indo até esse banheiro sozinha:

Enfrentando uma legião de zumbis que por lá perambulam

E tem outra: eles preferiram privilegiar quem frequenta o mezanino com um banheiro, para evitar que precisem descer as escadas. Isso tem lógica? Ué! Quem pode subir para o mezanino, pode descer e usar um banheiro no térreo. Será que a pessoa iria se sentir tão melindrada de ser vista entrando num banheiro? Já quem está no térreo e não puder subir as escadas – muitas vezes com sérias restrições físicas – tem que sair do restaurante, “enfrentar” o corredor do shopping cheio de pivete correndo e procurar pelo banheiro coletivo.

Meu sangue subiu.

Mas não acabou.

O sr. X me convidou para comparecer a um jantar (com mais 2 pessoas) na famosa hamburgueria localizada no terceiro piso de um shopping no centro de Joinville, oportunidade em que ele iria se desculpar pessoalmente do ocorrido.

É isso mesmo?

Espelhos em troca de toras de Pau-brasil, chantagem em troca de “amor” e pontos Dotz em troca de mercadorias no Angeloni eu já tinha visto… mas lanchinho em troca de acessibilidade era a primeira vez.

Eu fiquei preocupada… a famosa hamburgueria localizada no terceiro piso de um shopping no centro de Joinville já está na cidade há alguns anos. Será que ninguém reclamou disso? Ou, se reclamou, ganhou um lanchinho e “ficou tudo bem”?

Estava furiosa (Ui!). Respondi o e-mail, possuída pelo ritmo ragatanga.

“Prezado Sr. X…”

É claro que estava rosnando. É claro que não aceitei a “troca”. É claro que citei a ABNT NBR 9050. E é claro que cheguei a ser indelicada e disse que até boteco pé-sujo tinha banheiro no mesmo pavimento. Mas, poxa, não era possível… E eu não ia ser louca de estar brigando por algo sério, que não era só para mim, mas uma coletividade que frequenta aquele lugar.

Senti que estava defendendo o óbvio.

Mas eis que, em uma bela manhã, recebo um e-mail da famosa hamburgueria, com assinatura do Sr. Y*. O sr. Y, em suma, disse que sentia muito pelo meu problema, e não tinha obrigação de ter um banheiro no restaurante. Salientou, também que o shopping havia aprovado o projeto e que tudo estava de acordo. O sr. Y disse que não concordava com o meu posicionamento, que classificou como HOSTIL. #PassarBem

Confesso que cheguei a sentir um pingo de arrependimento por ter agitado tudo isso. Mas é exatamente o que pessoas como o sr. Y quer que quem ouse contestar seus estabelecimentos sinta: culpa.

“…HOSTIL!”

Ainda bem: Lembrei o porquê havia começado tudo isso e voltei a ter coragem.

E graças ao Sr. X e ao Sr. Y que cheguei à conclusão que a gente “se acostuma” a coisas demais para não se incomodar, para não se indispor… Não sabemos mais que é certo e o que é errado, já que o errado entrou para o costume.

Mas não devia.

Graças ao sr. X e ao sr. Y eu vi que “comprar” essa briga valeria a pena, e só me deixou mais corajosa.

Graças ao sr. X e ao sr. Y, vi luz num projeto adormecido e esquecido chamado “blog”, que hoje tem nome… e é “SEM ACESSO“!

E eu só queria ir ao banheiro…

*Os nomes foram alterados para resguardar a identidade dos personagens.

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Como você se vê?

Quem anda comigo sabe: eu não ligo tanto para olhares curiosos. Mas isso já me incomodou muito, quase ao ponto de sentar no chão do banheiro, em posição fetal, e chorar ao som de alguma música da Fiona Apple.

A verdade é que parei de me incomodar no momento em que percebi que eu também reparo. É, eu também olho com mais atenção para alguém, digamos… diferente. Não que eu a-me fazer isso, mas nossos olhos se voltam com mais atenção. Não tem jeito. É da natureza do ser humano: somos movidos pela novidade, pelo diferente.
Você repara no cabelo diferente de sua vizinha, no sapato cafona da pessoa que espera na fila do banco ao seu lado, na calça-de-pescar-siri da colega, e na pessoa cambaleante que “chega chegando”. Afinal de contas, que graça teria a vida nesse planeta se tudo fosse “perfeito”?

Quando estou andando em algum lugar, imagino que estou assim:

“She’s a Lady… Whoa whoa whoa, she’s a Lady…”

Aí, olho a minha volta, e tem gente assim:

“Ai, o que é isso?”

Já vi até alguns indivíduos assim na fila do caixa do Big da Getúlio Vargas:

“Porque, Senhor? Tão bonitinha e deixasse desse jeito? Misericórdia”

Outros acham “bonitinho” o “jeitinho dela” e esboçam uma simpatia:

“Ah gente, olha o jeitinho dela!”

A verdade é que eu acabo me sentindo desse jeito:

“Meu cabelo está tão estranho assim?”

Mother of Lord!

Mas logo passa.
Sempre que fico aflita com olhares curiosos, lembro que aquelas pessoas não tiveram as mesmas experiências que vivi. A ordem é sorrir e continuar a nadar andar.

Enquanto fazia pesquisas para “lançar” esse blog, encontrei um vídeo maravilhoso da ONG Entre Rodas & Batom, que faz um trabalho incrível na promoção da valorização da menina e da mulher com alguma deficiência, informando, através de oficinas abertas ao público, sobre o cenário que estas mulheres vivem e sobre suas infinitas perspectivas de vida.

É, tem gente que nos dá #RazõesParaAcreditar.
Para promover a ONG, os alunos da ECA/USP criaram esse vídeo abaixo que, tirando a música Mimimi, retrata a realidade de uma simples voltinha na rua, na visão da moça e na nossa visão.

Passamos anos e anos assistindo a vídeos melosos de programas de auditório sensacionalistas para, enfim, encontrar algo genial, sensível, profundo e muito lúcido. E não é triste!

Essa moça tá/é diferente.

A rampa e o holofote

Era sexta-feira (20/09) e estava “de boas” de olho no Facebook e, entre um “meme” do Chapolin Sincero e uma foto de balada, localizo esta notícia, do Jornal Notícias do Dia de Joinville:

Hospital Municipal São José ganha mais acessibilidade, em Joinville

Rampa de acesso que liga o prédio central ao jardim e espaço de convivência foram entregues nesta quinta

Os pacientes do Hospital Municipal São José, principalmente aqueles que utilizam cadeiras de rodas, muletas e andadores, podem agora usufruir do Jardim Central com maior segurança e conforto. Nas últimas semanas foi concluída a construção da rampa de acesso que liga o prédio central ao jardim, espaço de convivência para pacientes e acompanhantes, que anteriormente tinha acesso apenas por escadaria.

Divulgação/ND

“Evento de entrega da rampa e de outras melhorias no espaço teve a presença de representantes do hospital e da Construtora Correia, que patrocinou as obras.”

Então…

Inauguração de uma rampa?

Inauguração de uma rampa… em um hospital?

E tem até fitinha!

A única coisa que me veio à cabeça, no momento, foi uma imagem que, há tempos atrás, foi amplamente divulgada nas redes sociais e, é claro, em sites de humor.

“Ah, mas não reclame! Pelo menos fizeram!”

Eu não conheço o interior do Hospital São José e, portanto, não posso dar meu humilde pitaco na acessibilidade do local. E, aliás, acho um ato extremamente positivo.

O que surpreende, na verdade, é algo que deveria ser regra (ambientes acessíveis a todos os “públicos”) ser noticiado como “Uau! Vejam só… agora contamos com a tal da acessibilidade! AGORA vai!”

E, repare: é algo tããão diferente, tãão único, que precisa de uma inauguração. #ObraFarônica

Minha surpresa acabou quando lembrei que vivemos em um tempo em que atitudes positivas, por serem tão raras, viram machete de notícia.

Agradecimentos

Quando coloquei o SemAcesso no ar, cliquei em “publicar” e saí de perto do notebook. Estava ansiosa, mas “morrendo” de receio do que tinha “jogado” para o mundo sem ter pedido opinião à ninguém. Mas o que não esperava era uma recepção tão calorosa!

Para dizer a verdade, na noite de domingo para segunda-feira eu não dormi direito. O relógio marcava 6:30 da manhã, os primeiros raios de claridade entravam pela janela do meu quarto, e eu me deparei olhando para o teto, pensando:

“Será que agora eu tenho uma espécie de missão? Será que a vida deu tantas voltas para parar justamente aqui? O que aquelas pessoas esperavam de mim? Peraí…Será que alguém espera algo de mim? Eu perco o celular na minha própria cama…como alguém pode esperar algo de mim? E se eu falhar?”

2013-08-28 08.10.15

Estava atônita. Sair do casulo estava sendo um processo de auto-conhecimento. Foi lento e gradual e agora estava aqui, transformando um saco de limões, que recebi logo que nasci, em uma limonada suíça… com uma sombrinha adornando o copo! 😀

A verdade é que fiquei muito surpresa e feliz com vários relatos e agradecimentos que recebi. E, considerando que o blog é um bebê de 4 dias, não foram poucos. A internet é algo incrível mesmo: Você pode comprar pedaços da Cruz à partilhar histórias que você achava que só aconteciam contigo #OhMundoInjusto.

E o mais incrível aconteceu: Percebi que pessoas que não têm qualquer restrição física e não possuem relação com alguém que tenha, passaram, com o post inaugural do blog, a prestar atenção às dificuldades que, infelizmente, quem a possui, passa. Sim, o blog está no caminho certo!

Não me considero uma mensageira do mundo cambaleante, mas acredito que uma pessoa com alguma deficiência, ao invés de sentar no meio-fio e chorar, deve divulgar informações e educar o próximo a este respeito. Afinal de contas, não se pode esperar de quem não lide com qualquer restrição física no seu dia-a-dia tenha as mesmas impressões de quem tenha.

No mais, quero agradecer tanto prestígio e convidá-los para acompanhar os próximos posts!

foto

Este senhor com dermatite seborreica agradece!

Será “supimpa, broto”!

Apresentando o Sem Acesso

Confesso que fiquei com receio de “lançar” um blog… Acredito que escrever para um indeterminado número de pessoas é uma responsabilidade enorme. E esse não é mais um blog de múóda.

Eu preciso me apresentar:  sou Larissa Marcantoni Corrêa, tenho 25 anos e sou facilmente perceptível. Quero dizer: eu sou a guria cambaleante da muleta cor cobre, coisa que você não vê em todos os lugares.

Olha o jeitinho dela!

Minha deficiência não é nenhum segredo. Até porque, se quisesse disfarçar, não conseguiria, porque “é impossível disfarçar o indisfarçável”. Não gosto de fazer disto um tabu, mas nunca fui de contar, por exemplo, à pessoa que pega o elevador comigo e fala que conhece um curandeiro que vai dar jeito em mim.

Convivo com a deficiência, que você leu no Sobre, desde que nasci e, modéstia à Marte, aprendi a lidar com ela muito bem. Embora eu não me defina em função disto – porque é mais um detalhe sobre a minha pessoa – é um detalhe muito importante que levo aonde quer que eu vá e me transformou na pessoa que hoje sou. Mais precisamente na pessoa que se olha no espelho e diz:

Mas não faz muito tempo que passei a me incomodar com as privações de acesso aos lugares que frequentaria. Já cansei de ouvir de donos de estabelecimentos que a deficiência é um problema meu e que – mesmo desrespeitando normas de acessibilidade – o ambiente estava nos conformes.

Já cansei de bater nas vitrines de lojas, fazer cara de cachorro pidão e pedir que alguém me ajude a escalar as escadas que dão acesso ao interior do ambiente. E quando reclamo, sinto que a promessa por melhorias é um favor que o estabelecimento pode fazer “àquela menina”.

O que as pessoas esquecem é que a pessoa com deficiência – que, frise-se, é apenas um detalhe – é consumidor em potencial, assim como eu, você e a Lady Gaga.

Além disso, inexiste a noção de que você e a Lady Gaga podem, a qualquer tempo, necessitar de rampas, corrimãos, piso tátil, e todas aquelas coisas que esquecem no caminho de qualquer obra.

E, justamente por isso que o blog leva esse nome: SEM ACESSO.

Este espaço virtual tem a intenção de congregar quem convive com isso, seja você parente ou amigo de alguma pessoa com deficiência. Prometo não ser uma “incluchata” e somente abordar as questões de acessibilidade, justamente porque o intuito deste espaço é desmistificar a deficiência e compartilhar otimismo, mesmo nas situações mais pitorescas.

Aqui no Sem Acesso vou dividir minhas experiências vividas e história de vida. Sabe, nos anos 90, principalmente aqui em Joinville, eu só via pessoa “como eu” vivendo de forma solitária, pedindo esmolas no sinal ou contando suas tristes experiências de vida nas clínicas e hospitais. Não havia essa noção de que, no fundo, todos são assim… como eu e você!

Agradeço aos meus amigos e familiares que, de tanto ouvirem (e conviverem) as histórias engraçadas que passei, me deram coragem de encarar (mais) este desafio de adicionar algo a este mundo que, ao olhar de muitos, é restrito e “tão difícil, né?!”.

Entre em contato comigo e coloque quem você acha que vai gostar deste blog em contato também! Ficarei feliz com seu contato! Histórias não faltam para serem compartilhadas!