Unha da semana

Quem é menina e tem unhas sabe: ficar muito tempo sem ir à manicure pode tornar sua mão horripilante.

E ninguém escapa:

“Oh boy…”

Estava, vergonhosamente, há uns 15 dias sem mexer nas minhas unhas. A situação estava periclitante.

Estava assustando a sociedade

As tarefas do dia-a-dia estavam complicadas…

Não estava sendo fácil

Em uma bela sexta-feira, resolvi tomar vergonha na cara e marcar uma manicure… afinal, sábado tinha fiesta!

#TipoLinda

Telefonei para o salão de beleza que sempre frequento, cujo nome-fantasia é composto pelo nome das donas… mas não tinha horário. Telefonei para outro: também não. E outro: “só semana que vem, meu doce!”.

Até que consegui marcar em um outro salão que nunca havia frequentado. Mas algo me dizia que não daria certo.

Cheguei pouco antes do meu horário e encontrei  um estacionamento lotado. Dei a volta e procurei pela vaga privativa para “dificientis” físicos e a encontrei parcialmente ocupada. Assim…2/3 da vaga ocupada por um carro de tiozão sem qualquer identificação que transportava um “quebrado”.

Parei meu carro ao lado da vaga e fiquei pensando: “Meu carro não entra aí. Nem a pau. Se eu tentar, vou quebrar alguma coisa da porta de entrada. Mas será que eu sou tão incompetente assim? Ué… a vaga está ‘em tese’ vaga…”.

Subitamente meus pensamentos foram interrompidos por um senhor que, do interior do salão de beleza, abriu uma janela e disse:

– Eiii, psiu!

Não costumo atender a um chamado desse, mas olhei. Abaixei o vidro e o senhor, dono funcionário do estabelecimento, continuou:

– Estaciona aqui ó (apontando para a vaga privativa)! Só deixa meio de lado mesmo! Essa vaga ninguém usa, não temos clientes ‘dificientes’! Ninguém usa nesse horário!

Foi quando percebi que ele não percebeu que meu carro tem o Símbolo Internacional de Acesso e eu, bem… tive que falar:

– Mas eu sou ‘dificiente’!

“ops”

Totalmente contaminada pelo vírus SemAcesso.com, retruquei:

– Vocês sempre fazem isso? Não tem vaga e o próprio estabelecimento orienta a estacionar nessa vaga? Essa vaga deve estar sempre disponível para quem precisa!

Ele ficou um pouco desnorteado. Vi que olhou para os lados, balbuciou algo para trás, e continuou:

– Ããh éé ããh, vou tentãr tirããr esse carro daqui… peraí…

Olhei novamente para minhas unhas precárias, respirei fundo e pensei que poderia ser paciente. Estacionei num cantinho e aguardei…até levar uma buzinada de uma cliente! Afinal, estava realmente obstruindo o “trânsito” no estacionamento.

Caí na real:

“O que estava fazendo? Tentando entrar num estabelecimento SEM ACESSO? Esperando resolverem uma situação que o próprio estabelecimento armou? Eu iria mesmo tolerar essa falta de respeito?”

Arranquei o carro de lá. Estava com o coração cheio de mágoa e fogo saindo pela boca. A Vera Verão que existe em mim já estava sentada no banco do carona, com os vidros abertos e gritando:

“ABSURDOOOOOOOO!!!”

Estava decidida: voltaria lá, mas voltaria armada pediria um pouco mais de cuidado com essa vaga.

Voltando ao estabelecimento, percebi uma certa movimentação no estacionamento. Eis que aparece um funcionário com as chaves do carro de tiozão que ocupava boa parte da vaga. Mas o carro era, aparentemente, automático, e ele não conseguiu tirar do lugar.

Meu horário de manicure já estava estourado, e minhas unhas, um bagaço. Decidi voltar para casa.

Telefonei e me identifiquei. Disse que não faria as unhas naquele dia por esse motivo que você leu acima. A atendente respondeu que ninguém viu que a vaga estava ocupada, mas… a vaga fica na porta! NA PORTA. Eu hein.

Mas não importa… afinal, ninguém usa essa vaga mesmo, conforme o próprio estabelecimento prega.

Enviei um e-mail ao salão de beleza descrevendo a situação e, uma semana depois recebi uma resposta que, dentre várias firulas, contou que o estabelecimento vai contratar um manobrista. Hmm… precisa mesmo de manobrista para criar respeito?

Veja: Estas vagas próximas da porta não são luxos para quem as pleiteia ou exigências chatas dos órgãos chatos da chata da fiscalização. Essas vagas próximas da porta são extremamente necessárias para a autonomia de quem as utiliza e devem estar sempre disponíveis aos clientes deficientes e aos novos clientes deficientes, independentemente do horário.

Por exemplo, eu não fiz minhas unhas porque sequer consegui sair do carro. Não poderia, de igual forma, estacionar na rua e contar com a sorte de um amor tranquilo não cair na sarjeta para chegar no salão de beleza. A vaga destinada ao meu uso (próxima da entrada) estava sendo utilizada por alguém que poderia estacionar um pouco mais longe da porta.

O que mais impressiona é essa mania, cada vez mais frequente, de estabelecimentos da cidade incentivarem a usar essas vagas quando a pessoa não necessita delas porque lá não tem clientes “dificientes”. Arranquem essas placas da parede e pintem o pavimento de cinza de uma vez.

Mas e a pessoa que estaciona? Porque obedece?

Você mataria alguém porque “o guarda ali” mandou?

Só queria fazer as unhas…

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