Moça, você é guerreira

Esperava sozinha, em um gelado banco verde musgo, o horário de entrada do meu estágio no Escritório Modelo – obrigatório no últimos suspiros do curso de Direito da Univille – quando percebo um “cochicho” e olhares curiosos ao lado: eram dois rapazes que nunca havia visto. Um deles, devo dizer, carregava uma cruz de madeira pendurada no pescoço.

Fingi que estava lendo. E eu lá ia me importar com gente com cara de esquilo assustado? Passei boa parte da vida sob esses olhares, não seria o olhar do cara-da-cruz-de-madeira que iria me abalar.

Mas o cochicho continuou e, olhei.

Um deles veio em minha direção.

“Ai meu Deus. É um psicopata da Univille! Amanhã, nos jornais, só vai dar ‘Estudante de Direito é esfaqueada com um canivete enferrujado dentro da Universidade.’!”, pensei.

Seria sequestrada e amanheceria nunca banheira encardida e sem um rim?

Respirei fundo e arquitetei: “É só dar uma “muletada” n…” e ele começou a falar. Obviamente não me recordo da íntegra, mas foi algo como “Você é filha de Deus, um presente para a Terra. Você é um exemplo de superação! Moça, você é guerreira!

“ÃHM?”

Confesso que deslizei no banco para o lado oposto ao dele. Aquele mancebo não me conhecia e achava que eu era “exemplo de superação”? Pôxa, estava só esperando o meu horário de estágio e, do nada, virei uma guerreira, um Power Ranger cor de rosa?

Quase chamei os “guerreiros” do BBB para formarmos um poderoso Megazord.

Achei estranho, mas achei melhor não retrucar, afinal, aquela era a convicção dele e, vamos combinar: nunca vi na vida.

Só passei o resto do dia confusa e rindo. E confusa.

Mas só contei essa história porque quero chegar a um ponto: ter uma deficiência não torna a pessoa mais inteligente, mais sensata, imaculada, iluminada. Pessoas continuam sendo pessoas, mesmo as que têm deficiências. Não há um pedestal na evolução humana, não, viu?! Não temos um lugar cativo no Paradise por conta de uma deficiência. Não adianta cortar o dedo minguinho, ok?

Acho muito “engraçado” como a mídia (não só a brasileira) e, até mesmo o senso comum, expõe uma pessoa com deficiência: ou ela é heroína da superação ou uma coitadinha. Você já reparou?

Tem jornalista que adora o seguinte nariz de cera: “Fulana que, apesar da deficiência, está quebrando tabus e conseguiu estudar/trabalhar/casar/fundar uma ONG…”.

Sinto um misto de vergonha alheia com preocupação ao ler algo assim. Vergonha alheia porque fico pensando o tipo de coisa que passa na cabeça de alguém que escreve isso. E preocupação é a formação de opinião que estas pessoas podem realizar.

Parece até que não existe um “meio termo”, onde “somos” seres humanos perambulando pelo mundo como qualquer outro, de modo que qualquer conquista é louvada, potencializada, é tida como um milagre e etc e, um fracasso é (só pode ser) culpa da deficiência – “coitadinha dela!”.

De uma vez por todas: deficiências em nada tem a ver com capacidades e incapacidades!

Abandone o “coitadismo” e foque na acessibilidade… por uma vida mais livre!

É uma pena que acessibilidade AINDA não chame audiência.

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Não sou especial. Sou edição limitada!

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Unha da semana

Quem é menina e tem unhas sabe: ficar muito tempo sem ir à manicure pode tornar sua mão horripilante.

E ninguém escapa:

“Oh boy…”

Estava, vergonhosamente, há uns 15 dias sem mexer nas minhas unhas. A situação estava periclitante.

Estava assustando a sociedade

As tarefas do dia-a-dia estavam complicadas…

Não estava sendo fácil

Em uma bela sexta-feira, resolvi tomar vergonha na cara e marcar uma manicure… afinal, sábado tinha fiesta!

#TipoLinda

Telefonei para o salão de beleza que sempre frequento, cujo nome-fantasia é composto pelo nome das donas… mas não tinha horário. Telefonei para outro: também não. E outro: “só semana que vem, meu doce!”.

Até que consegui marcar em um outro salão que nunca havia frequentado. Mas algo me dizia que não daria certo.

Cheguei pouco antes do meu horário e encontrei  um estacionamento lotado. Dei a volta e procurei pela vaga privativa para “dificientis” físicos e a encontrei parcialmente ocupada. Assim…2/3 da vaga ocupada por um carro de tiozão sem qualquer identificação que transportava um “quebrado”.

Parei meu carro ao lado da vaga e fiquei pensando: “Meu carro não entra aí. Nem a pau. Se eu tentar, vou quebrar alguma coisa da porta de entrada. Mas será que eu sou tão incompetente assim? Ué… a vaga está ‘em tese’ vaga…”.

Subitamente meus pensamentos foram interrompidos por um senhor que, do interior do salão de beleza, abriu uma janela e disse:

– Eiii, psiu!

Não costumo atender a um chamado desse, mas olhei. Abaixei o vidro e o senhor, dono funcionário do estabelecimento, continuou:

– Estaciona aqui ó (apontando para a vaga privativa)! Só deixa meio de lado mesmo! Essa vaga ninguém usa, não temos clientes ‘dificientes’! Ninguém usa nesse horário!

Foi quando percebi que ele não percebeu que meu carro tem o Símbolo Internacional de Acesso e eu, bem… tive que falar:

– Mas eu sou ‘dificiente’!

“ops”

Totalmente contaminada pelo vírus SemAcesso.com, retruquei:

– Vocês sempre fazem isso? Não tem vaga e o próprio estabelecimento orienta a estacionar nessa vaga? Essa vaga deve estar sempre disponível para quem precisa!

Ele ficou um pouco desnorteado. Vi que olhou para os lados, balbuciou algo para trás, e continuou:

– Ããh éé ããh, vou tentãr tirããr esse carro daqui… peraí…

Olhei novamente para minhas unhas precárias, respirei fundo e pensei que poderia ser paciente. Estacionei num cantinho e aguardei…até levar uma buzinada de uma cliente! Afinal, estava realmente obstruindo o “trânsito” no estacionamento.

Caí na real:

“O que estava fazendo? Tentando entrar num estabelecimento SEM ACESSO? Esperando resolverem uma situação que o próprio estabelecimento armou? Eu iria mesmo tolerar essa falta de respeito?”

Arranquei o carro de lá. Estava com o coração cheio de mágoa e fogo saindo pela boca. A Vera Verão que existe em mim já estava sentada no banco do carona, com os vidros abertos e gritando:

“ABSURDOOOOOOOO!!!”

Estava decidida: voltaria lá, mas voltaria armada pediria um pouco mais de cuidado com essa vaga.

Voltando ao estabelecimento, percebi uma certa movimentação no estacionamento. Eis que aparece um funcionário com as chaves do carro de tiozão que ocupava boa parte da vaga. Mas o carro era, aparentemente, automático, e ele não conseguiu tirar do lugar.

Meu horário de manicure já estava estourado, e minhas unhas, um bagaço. Decidi voltar para casa.

Telefonei e me identifiquei. Disse que não faria as unhas naquele dia por esse motivo que você leu acima. A atendente respondeu que ninguém viu que a vaga estava ocupada, mas… a vaga fica na porta! NA PORTA. Eu hein.

Mas não importa… afinal, ninguém usa essa vaga mesmo, conforme o próprio estabelecimento prega.

Enviei um e-mail ao salão de beleza descrevendo a situação e, uma semana depois recebi uma resposta que, dentre várias firulas, contou que o estabelecimento vai contratar um manobrista. Hmm… precisa mesmo de manobrista para criar respeito?

Veja: Estas vagas próximas da porta não são luxos para quem as pleiteia ou exigências chatas dos órgãos chatos da chata da fiscalização. Essas vagas próximas da porta são extremamente necessárias para a autonomia de quem as utiliza e devem estar sempre disponíveis aos clientes deficientes e aos novos clientes deficientes, independentemente do horário.

Por exemplo, eu não fiz minhas unhas porque sequer consegui sair do carro. Não poderia, de igual forma, estacionar na rua e contar com a sorte de um amor tranquilo não cair na sarjeta para chegar no salão de beleza. A vaga destinada ao meu uso (próxima da entrada) estava sendo utilizada por alguém que poderia estacionar um pouco mais longe da porta.

O que mais impressiona é essa mania, cada vez mais frequente, de estabelecimentos da cidade incentivarem a usar essas vagas quando a pessoa não necessita delas porque lá não tem clientes “dificientes”. Arranquem essas placas da parede e pintem o pavimento de cinza de uma vez.

Mas e a pessoa que estaciona? Porque obedece?

Você mataria alguém porque “o guarda ali” mandou?

Só queria fazer as unhas…

SemAcesso visita: Sociedade Harmonia Lyra

Quem é de Joinville sabe: a Sociedade Harmonia Lyra é sinônimo de sofisticação. Com mais de 150 anos de história e uma arquitetura que remete aos palacetes europeus, o clube foi palco de incontáveis bailes de gala e carnaval, shows, teatros, exposições, desfiles, formaturas, casamentos, festas de 15, 30, 80… 100 anos. Foi, inclusive, em 1983, “berço” do nosso famoso Festival de Dança de Joinville.

Sociedade Harmonia Lyra

Sociedade Harmonia Lyra

Um lustre testemunha de taaantas histórias...

Um lustre testemunha de taaantas histórias…

É como se no centro de Joinville existisse uma espécie de portal para voltar no tempo. Ao entrar lá, tem-se a impressão de estar em outra época. A sensação não é à toa: é a associação mais antiga de Santa Catarina.

Lá, dentre outros eventos que o clube centenário pôde receber, inúmeras moças foram apresentadas à sociedade, casais juraram amor eterno, jovens brindaram suas formaturas e diversos cantores e atores apresentaram suas artes.

A debutante Roseli Marcantoni desfila pelos salões da Sociedade Harmonia Lyra

A debutante Roseli Marcantoni desfila pelos salões da Sociedade Harmonia Lyra

Anos mais tarde, a filha da Roseli comemorou seus 15 anos no mesmo local…

 

Mas havia um porém: uma grande escadaria separava o salão principal (cujo nome correto é “Salão de Festas”) e o salão Nobre do térreo. Qualquer pessoa com alguma dificuldade de locomoção que chegasse a qualquer evento na Sociedade Harmonia Lyra tinha três opções:

a) Não subia;

b) Segurava na mão de Deus e ia;

c) Olhava para os lados e pedia para alguém fazer a tal “cadeirinha”.

Se você não for a Kylie Minogue sendo carregada por Domenico Dolce e Stefano Gabbana, a “cadeirinha” não tem qualquer glamour cabimento.

"Nós na Lyra"

“Nós na Lyra” #luxo #glamour #iphonesia

Até que alguns leitores do blog enviaram uma matéria que devolveu fé à humanidade me deixou muito orgulhosa. A Sociedade Harmonia Lyra, que é um prédio tombado e não pode realizar grandes modificações em sua estrutura, acabara de inaugurar uma plataforma de acessibilidade acoplada à escadaria. O esquipamento é italiano, custou R$ 70 mil e foi custeado, em parte, pela ACIJ.

Note que os empresários da ACIJ não chamaram uma colunista social ou apareceram no jornal para a inauguração da plataforma. Os empresários sabem que associar suas empresas a qualquer doação seria vaidade, nunca caridade. Eles sabem que acessibilidade não é caridade, mas um direito. Um direito de todos.

E não pararia por aí: um banheiro estava sendo readequado para uso de cadeirantes e a fachada ganharia uma rampa de acesso.

Não me contive. Chamei minha mucama assessora e hoje visitei a Sociedade Harmonia Lyra:

Vaga de estacionamento sinalizada e respeitada

Vaga de estacionamento sinalizada e respeitada

A plataforma acoplada à escadaria

A plataforma acoplada à escadaria

Plataforma pronta para o uso

Plataforma pronta para o uso

Testando a plataforma

Chegamos ao Salão de Festas:

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Acredite: somente graças a esta plataforma, conhecer o Salão de Festas foi um “sonho possível” para muita gente.

E tem mais pela frente: o clube, em breve, vai contar com uma rampa de entrada definitiva e um banheiro acessível:

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Com esta visita pude constatar que essa história de “ãh não tem como adaptar, moça… é prédio histórico blã blá blã…” é um grande engano! Basta que existam COBRANÇAS e BOA VONTADE. Veja só: Finalmente a Sociedade Harmonia Lyra é um clube de TODOS! Descobri que o clássico e a tecnologia formam um casal muito simpático.

Agora sim!

O glamour é para todos!