Um par de asas

Eu tinha uns 7 ou 8 anos quando conheci, em uma das 6729592 clínicas que frequentei, uma moça chamada Helena. Helena era jovem, independente e, assim como eu, ela também fazia fisioterapia desde…sempre. Mas ela fazia algo que me encantava: ela dirigia.

Não dirigia um andador ou um aparador de grama. Helena dirigia um carro, adaptado para ela, pelas ruas de Joinville. Sozinha.

Helena não era triste e dirigia. Aquilo me inspirou.

O tempo passou e nunca mais vi Helena. Talvez tenha sido daquelas presenças que surgem na vida da gente para inspiração. Daquelas que, se não tivessem aparecido, as ideias seriam diferentes.

Eu fui crescendo, mudando de fisioterapeutas e escutando muitos “você nunca vai dirigir sozinha!” “você não tem reflexo!” “é muito perigoso para você!” “você dirigindo um carro? nunca!”.

Fiz 18 anos e criei uma obsessão: tirar a tal carteira de motorista. Não, eu não queria fazer racha na BR. Queria dirigir um carro. Eu não saía sozinha pelas ruas…queria ter os cabelos ao vento. Pesquisei, pesquisei, pesquisei e descobri que não seria fácil. Teria que passar por uma Junta Médica que atestasse que eu tinha as condições mínimas que me permitissem dirigir um veículo automotor e precisaria de uma autoescola que contasse com um veículo adaptado. Na época, descobri que somente uma (onde fiz as aulas) contava com o tal veículo aqui em Joinville. No mais, era um processo de habilitação como qualquer outro.

A primeira vez que eu tirei o carro da autoescola do lugar, senti meu coração saindo pela boca de tanta alegria. Eu estava dirigindo. Dirigindo um carro!

Aquilo era uma façanha.

Foi incrível mas, assim como você, eu deixei o carro “morrer”, liguei o pisca pro lado errado, quase joguei o carro no mato e senti que o instrutor não segurava na argola de segurança porque ele gostava. Ele estava com medo.

Aprendi e, desde então, dirijo utilizando as mãos. Posso usar os pés para sapatear, se quiser.

Na época da autoescola, o carro não era automático e, portanto, deveria, com a mão direita, trocar a marcha que, por sua vez, tinha um sensor que acionava a embreagem. Ainda com a mão direita, deveria segurar o volante. Com a mão esquerda, pressionava uma “alavanca” para frear e “puxava” no meu sentido para acelerar. Ou seja: ou prestava muita atenção ou precisaria de, no mínimo, 3 braços para tocar a “engenhoca”.

A primeira (e única) prova prática foi marcada para uma manhã de janeiro. Não era uma manhã qualquer: chovia toda a chuva do ano naquele dia. Enquanto minha mãe rezava num cantinho (aquela chuva não era normal) eu era aprovada na prova.

Um portal se abriu.

Ou não: Mesmo com a CNH em mãos e contando das minhas aulas num carro sem direção hidráulica, muita gente voltou a repetir o velho mantra que ouço desde sempre: “você nunca vai dirigir sozinha!” “você não tem reflexo!” “é muito perigoso para você!” “você dirigindo um carro? nunca!”.

Sei que era “cuidado“, mas eu já sabia do que era capaz.

Decidi que não ouviria essas pessoas.

Os anos passaram e percebi que não adiantaria uma CNH nas mãos e coragem na cabeça sem um carro para chamar de meu. Depois de uma novela sui generis de 09 meses com a Receita Federal (que é pano pra manga para outro post), adquiri meu primeiro carro. Ele nasceu!

Recebendo as chaves do vendedor da concessionária

Recebendo as chaves do vendedor da concessionária

2012-03-22 11.49.38

E adaptei:

foto

Mas como estava há anos sem encostar em um carro, fiz algumas aulas, no meu próprio carro, com uma instrutora muito paciente. Queria evitar transtornos por aí…

Quando vi, estava na BR a caminho de São Francisco do Sul (cidade vizinha). E de lá pra cá, passei a usar esse meu par de asas.

A emoção é sempre única! E conduzir quem já muito me conduziu é uma honra sem igual:

Percebi também que nosso cotidiano é feito de pontos de vista: para muitos, um engarrafamento é um pé no saco problema; para mim, uma parte importante da minha conquista.

Meu primeiro engarrafamento teve uma ilustre Lua cheia...

Meu primeiro engarrafamento teve uma ilustre Lua cheia…

Feliz de nós que vivemos em uma época em que a tecnologia da adaptação pode ser a chave para uma vida mais livre. Quase todos os veículos podem ser adaptados para quase todas as deficiências.

Mas ainda não inventaram um carro para que um deficiente visual possa utilizá-lo.
Ops! Inventaram, sim! Não é mesmo, Namaria?

Pesquisadores brasileiros criam carro que anda sozinho… e atropela a Ana Maria Braga.

 Criei este post na intenção de espalhar uma mensagem e deixar um mito para trás: ninguém conhece os limites do outro. Ninguém tem o direito de dizer que alguém “não tem condições” para fazer algo. A tecnologia e a vida surpreendem!

Felicidade é ter os cabelos ao vento!

Obrigada, Helena!

Anúncios

26 comentários sobre “Um par de asas

  1. Acredito que este post seja um dos mais emocionantes, mas que também deixa claro que NINGUÉM é INCAPAZ. Todos devem acreditar em seus sonhos e desejos, jamais desistir. Parabéns e obrigada por deixar tantas pessoas cientes de que podem. É maravilhoso saber que existem pessoas dispostas a dividir sabedoria e ajudar ao próximo.

  2. Ontem eu compartilhei um vídeo no Facebook sobre um jovem com deficiência que não desistiu do seu sonho. Com certeza vou compartilhar mais este post (hoje escrevi certo). Lari nosso orgurlho

  3. MUITO BOM, Larissa!Ficou incrível!Uma baita lição de vida!É muito bom estar na carona e ter o cabelo ao vento (mesmo com gel) a 100 km/h!hahahahaha Beijossss

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s