Um olhar sobre o passado

Dizem que lembrar o passado dá mau agouro. Dizem que “não presta”, que dá azar. Particularmente discordo disso. Eu me dei conta que o passado tem muito mais a nos ensinar do que nos prejudicar. Olhar para o passado faz parte da vida… e foi justamente isso que fiz esses dias:

Estava na sala de espera do meu médico psiquiatra, quando reencontro uma elegantíssima mulher que sempre demonstra simpatia comigo. Sempre que a encontro, ela sorri e, entre delicadezas, diz: “Meu filho estudou contigo!”. E eu juro que não sei quem é o garoto. Naquele dia não foi diferente, mostrando, inclusive, uma fotografia do tal garoto que supostamente estudou comigo. Disse que não lembrava e ela insistiu mostrando uma fotografia do filho ainda criança: “Ele fez maternal III contigo, lembra?”. Olhei fixamente para aquela fotografia. Aquele garoto até me parecia familiar… E veja só: a mãe dele lembrava de mim, mas eu não tinha qualquer lembrança daquela então criança.

Saí de lá preocupada. Será que eu tinha perda de memória? Será que eu era uma criança antipática? Será que eu tinha piolho?

Foi graças àquele encontro que me vi olhando para o passado.

A cidade era Joinville, o ano era 1993 e eu era uma criança fã da Xuxa que queria “começar a estudar”. Mas eu inspirava cuidados – não muitos, vale dizer: eu só não andava.

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Meus pais fizeram uma busca na Joinville de 1993 e encontraram uma Escola, a princípio, pra lá de especial: era uma Escola nova na cidade, muito bem recomendada, com arquitetura parcialmente acessível e cheia de gente com boa vontade para me receber. Era como se tirassem uma escola da novela e colocassem na vida real.

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Foram poucos meses lá, mas suficientes para criar lembranças como:

– O que vocês estão fazendo aí? Venham pra cá brincar!

– ‘Tia’, e a Larissa?

– Deixem ela aí, ela não anda!

Toda boa história tem uma vilã (ou várias!)

Um ano depois eu comecei a andar e a sambar na cabeça da tal professora. Assim como as feridas que eu adquiri engatinhando sozinha por lá, a Escola e a professorinha sumiram… pelo menos do meu campo de visão.

Aí eu lembrei o motivo de não conseguir lembrar do filho daquela simpática mulher: eu não convivia com as crianças da minha Turma nos momentos de recreação. Nem elas comigo. Minhas lembranças de lá são a cor do piso e uma almofada da Turma da Mônica que eu usava para sentar. Nada mais.

ããh, que script triste!

Paraa! Vou choraaaar

Os anos passaram e, como não sou uma árvore, mudei, obviamente, de lugar. Depois de mais uma busca nada fácil na Joinville de então, meus pais encontraram o local ideal para prosseguir meus estudos. Passei a frequentar um colégio com ensino forte, formação cristã e um charme tradicional, o que contava com suntuosas escadas do início do século XX.

Enquanto os anos passavam eu mais feliz ficava. Mas tinha um porém: Aquela arquitetura era Bonitinha, mas ordináária. Parecia que escada era uma tara da pessoa que projetou aquele lugar. Até banheiro tinha degrau.

Enquanto escalava aquelas inúmeras escadas confesso que cheguei a pensar: “Será que minha dificuldade de locomoção é inédita por aqui?”

Mas quem quebrava o pé também passava um mau bocado naquelas frias escadarias: Era carregado como um saco de cimento – com direito à plateia de crianças com olhos bem arregalados.

Os pedidos de modernização e instalação de itens que facilitassem a acessibilidade de todos pareciam incomodar os mais conservadores. Sabe, ia modificar a história do lugar.

Não, não e não!

Então, em um belo dia de primavera, alguém percebeu minha dificuldade com as escadas e teve a brilhante ideia: A Larissa passará os intervalos (ou recreio, se você está no colégio) na sala de aula. Assim ela estará protegida das pessoas maiores do que ela, eliminando o risco de cair da escada. Ela pode ter a companhia de uma amiguinha… só para não enlouquecer.

Eu virei praticamente zeladora da minha sala de aula:

“Cuida do meu diário?”

“Cuida do meu relógio?”

“Cuida da minha bomba caseira?”

Enquanto formulava este post, eu fiz uma pergunta: Porque estas pessoas teimavam em fazer essa “separação”? Seria medo? Seria o tal do preconceito? Seria inveja dos meus cabelos então mega lisos? Nenhuma destas alternativas.

Foi aí que fiz a descoberta:  o nome disso é segregação disfarçada de proteção.

Ahá…Na mosca!

Não sabe “o que fazer” com o aluno ou o local não oferece o mínimo de acessibilidade para sua autonomia? Vamos “protegê-lo“. Tapetinho da disciplina nele! É aí que a segregação se traveste de proteção e sai rodopiando por aí. 

E há diferenças entre EXCLUSÃO, SEGREGAÇÃO, INTEGRAÇÃO e a pretendida INCLUSÃO:

Didático!

Tem muito material a este respeito por aí. Mas sejamos concisos:

Exclusão é o que podemos chamar de “nem vem que não tem”.

Integração é a formação de um, digamos… GUETO.

Segregação é passar o intervalo da sala, já que tem uma escada no meio do caminho.

 

Eu sei, esta consciência é extremamente nova… mas que estas histórias não mais se repitam.

Gzuiz viu isso, ‘tia’!

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8 comentários sobre “Um olhar sobre o passado

  1. Muito bom texto, Larissa! A gente tem de divulgar essas coisas para que as histórias não se repitam. Isso é uma espécie de exorcismo. E vc faz esse papel muito bem, porque seus textos têm muito humor, sem deixar de falar o que é necessário. Grande beijo da Cadeira Voadora!

  2. É uma dura realidade!.O pior é que nada mudou,já passados vinte e poucos anos.Hoje em dia vemos coisas que nos revoltam, e ninguém melhora situaçoes assim do gênero.É necessário falar ,escrever,escancarar certos preconceitos.E eu sei que vc será um dia uma grande escritora!.Bjos.

  3. Ao ler este post, puxei na lembrança diversas vezes que te vi no colégio! Juro, dei muitas risadas em lembrar que até o banheiro “possuía escadas” . Tudo e todos estavam e possuiam uma escada!

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