Sem Acesso na TV

Não canto, não danço, não represento, não lavo, não passo, e só sei cozinhar pizza frita, mas quinta-feira passada (24/10) fui gentilmente convidada a participar do programa TVBE Entrevista com Sérgio Silva, para falar sobre o SemAcesso e essa mania de querer um mundo sem barreiras. O programa foi ao ar às 22 h da sexta-feira 25/10 e ao vivo.

Eu nunca apareci na TV, muito menos ao vivo… mas vi uma oportunidade incrível que divulgar a ideia do Sem Acesso, e do meu jeito:

E, é claro, fazer aquela crítica:

E lá fui eu, muito bem amparada pelos “assessores”:

Bastidores

Dizem que o vídeo é esse. Não assisti porque eu e minha voz temos uma rixa antiga… 😆

Frio na barriga por uma boa causa

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Um par de asas

Eu tinha uns 7 ou 8 anos quando conheci, em uma das 6729592 clínicas que frequentei, uma moça chamada Helena. Helena era jovem, independente e, assim como eu, ela também fazia fisioterapia desde…sempre. Mas ela fazia algo que me encantava: ela dirigia.

Não dirigia um andador ou um aparador de grama. Helena dirigia um carro, adaptado para ela, pelas ruas de Joinville. Sozinha.

Helena não era triste e dirigia. Aquilo me inspirou.

O tempo passou e nunca mais vi Helena. Talvez tenha sido daquelas presenças que surgem na vida da gente para inspiração. Daquelas que, se não tivessem aparecido, as ideias seriam diferentes.

Eu fui crescendo, mudando de fisioterapeutas e escutando muitos “você nunca vai dirigir sozinha!” “você não tem reflexo!” “é muito perigoso para você!” “você dirigindo um carro? nunca!”.

Fiz 18 anos e criei uma obsessão: tirar a tal carteira de motorista. Não, eu não queria fazer racha na BR. Queria dirigir um carro. Eu não saía sozinha pelas ruas…queria ter os cabelos ao vento. Pesquisei, pesquisei, pesquisei e descobri que não seria fácil. Teria que passar por uma Junta Médica que atestasse que eu tinha as condições mínimas que me permitissem dirigir um veículo automotor e precisaria de uma autoescola que contasse com um veículo adaptado. Na época, descobri que somente uma (onde fiz as aulas) contava com o tal veículo aqui em Joinville. No mais, era um processo de habilitação como qualquer outro.

A primeira vez que eu tirei o carro da autoescola do lugar, senti meu coração saindo pela boca de tanta alegria. Eu estava dirigindo. Dirigindo um carro!

Aquilo era uma façanha.

Foi incrível mas, assim como você, eu deixei o carro “morrer”, liguei o pisca pro lado errado, quase joguei o carro no mato e senti que o instrutor não segurava na argola de segurança porque ele gostava. Ele estava com medo.

Aprendi e, desde então, dirijo utilizando as mãos. Posso usar os pés para sapatear, se quiser.

Na época da autoescola, o carro não era automático e, portanto, deveria, com a mão direita, trocar a marcha que, por sua vez, tinha um sensor que acionava a embreagem. Ainda com a mão direita, deveria segurar o volante. Com a mão esquerda, pressionava uma “alavanca” para frear e “puxava” no meu sentido para acelerar. Ou seja: ou prestava muita atenção ou precisaria de, no mínimo, 3 braços para tocar a “engenhoca”.

A primeira (e única) prova prática foi marcada para uma manhã de janeiro. Não era uma manhã qualquer: chovia toda a chuva do ano naquele dia. Enquanto minha mãe rezava num cantinho (aquela chuva não era normal) eu era aprovada na prova.

Um portal se abriu.

Ou não: Mesmo com a CNH em mãos e contando das minhas aulas num carro sem direção hidráulica, muita gente voltou a repetir o velho mantra que ouço desde sempre: “você nunca vai dirigir sozinha!” “você não tem reflexo!” “é muito perigoso para você!” “você dirigindo um carro? nunca!”.

Sei que era “cuidado“, mas eu já sabia do que era capaz.

Decidi que não ouviria essas pessoas.

Os anos passaram e percebi que não adiantaria uma CNH nas mãos e coragem na cabeça sem um carro para chamar de meu. Depois de uma novela sui generis de 09 meses com a Receita Federal (que é pano pra manga para outro post), adquiri meu primeiro carro. Ele nasceu!

Recebendo as chaves do vendedor da concessionária

Recebendo as chaves do vendedor da concessionária

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E adaptei:

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Mas como estava há anos sem encostar em um carro, fiz algumas aulas, no meu próprio carro, com uma instrutora muito paciente. Queria evitar transtornos por aí…

Quando vi, estava na BR a caminho de São Francisco do Sul (cidade vizinha). E de lá pra cá, passei a usar esse meu par de asas.

A emoção é sempre única! E conduzir quem já muito me conduziu é uma honra sem igual:

Percebi também que nosso cotidiano é feito de pontos de vista: para muitos, um engarrafamento é um pé no saco problema; para mim, uma parte importante da minha conquista.

Meu primeiro engarrafamento teve uma ilustre Lua cheia...

Meu primeiro engarrafamento teve uma ilustre Lua cheia…

Feliz de nós que vivemos em uma época em que a tecnologia da adaptação pode ser a chave para uma vida mais livre. Quase todos os veículos podem ser adaptados para quase todas as deficiências.

Mas ainda não inventaram um carro para que um deficiente visual possa utilizá-lo.
Ops! Inventaram, sim! Não é mesmo, Namaria?

Pesquisadores brasileiros criam carro que anda sozinho… e atropela a Ana Maria Braga.

 Criei este post na intenção de espalhar uma mensagem e deixar um mito para trás: ninguém conhece os limites do outro. Ninguém tem o direito de dizer que alguém “não tem condições” para fazer algo. A tecnologia e a vida surpreendem!

Felicidade é ter os cabelos ao vento!

Obrigada, Helena!

Um olhar sobre o passado

Dizem que lembrar o passado dá mau agouro. Dizem que “não presta”, que dá azar. Particularmente discordo disso. Eu me dei conta que o passado tem muito mais a nos ensinar do que nos prejudicar. Olhar para o passado faz parte da vida… e foi justamente isso que fiz esses dias:

Estava na sala de espera do meu médico psiquiatra, quando reencontro uma elegantíssima mulher que sempre demonstra simpatia comigo. Sempre que a encontro, ela sorri e, entre delicadezas, diz: “Meu filho estudou contigo!”. E eu juro que não sei quem é o garoto. Naquele dia não foi diferente, mostrando, inclusive, uma fotografia do tal garoto que supostamente estudou comigo. Disse que não lembrava e ela insistiu mostrando uma fotografia do filho ainda criança: “Ele fez maternal III contigo, lembra?”. Olhei fixamente para aquela fotografia. Aquele garoto até me parecia familiar… E veja só: a mãe dele lembrava de mim, mas eu não tinha qualquer lembrança daquela então criança.

Saí de lá preocupada. Será que eu tinha perda de memória? Será que eu era uma criança antipática? Será que eu tinha piolho?

Foi graças àquele encontro que me vi olhando para o passado.

A cidade era Joinville, o ano era 1993 e eu era uma criança fã da Xuxa que queria “começar a estudar”. Mas eu inspirava cuidados – não muitos, vale dizer: eu só não andava.

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Meus pais fizeram uma busca na Joinville de 1993 e encontraram uma Escola, a princípio, pra lá de especial: era uma Escola nova na cidade, muito bem recomendada, com arquitetura parcialmente acessível e cheia de gente com boa vontade para me receber. Era como se tirassem uma escola da novela e colocassem na vida real.

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Foram poucos meses lá, mas suficientes para criar lembranças como:

– O que vocês estão fazendo aí? Venham pra cá brincar!

– ‘Tia’, e a Larissa?

– Deixem ela aí, ela não anda!

Toda boa história tem uma vilã (ou várias!)

Um ano depois eu comecei a andar e a sambar na cabeça da tal professora. Assim como as feridas que eu adquiri engatinhando sozinha por lá, a Escola e a professorinha sumiram… pelo menos do meu campo de visão.

Aí eu lembrei o motivo de não conseguir lembrar do filho daquela simpática mulher: eu não convivia com as crianças da minha Turma nos momentos de recreação. Nem elas comigo. Minhas lembranças de lá são a cor do piso e uma almofada da Turma da Mônica que eu usava para sentar. Nada mais.

ããh, que script triste!

Paraa! Vou choraaaar

Os anos passaram e, como não sou uma árvore, mudei, obviamente, de lugar. Depois de mais uma busca nada fácil na Joinville de então, meus pais encontraram o local ideal para prosseguir meus estudos. Passei a frequentar um colégio com ensino forte, formação cristã e um charme tradicional, o que contava com suntuosas escadas do início do século XX.

Enquanto os anos passavam eu mais feliz ficava. Mas tinha um porém: Aquela arquitetura era Bonitinha, mas ordináária. Parecia que escada era uma tara da pessoa que projetou aquele lugar. Até banheiro tinha degrau.

Enquanto escalava aquelas inúmeras escadas confesso que cheguei a pensar: “Será que minha dificuldade de locomoção é inédita por aqui?”

Mas quem quebrava o pé também passava um mau bocado naquelas frias escadarias: Era carregado como um saco de cimento – com direito à plateia de crianças com olhos bem arregalados.

Os pedidos de modernização e instalação de itens que facilitassem a acessibilidade de todos pareciam incomodar os mais conservadores. Sabe, ia modificar a história do lugar.

Não, não e não!

Então, em um belo dia de primavera, alguém percebeu minha dificuldade com as escadas e teve a brilhante ideia: A Larissa passará os intervalos (ou recreio, se você está no colégio) na sala de aula. Assim ela estará protegida das pessoas maiores do que ela, eliminando o risco de cair da escada. Ela pode ter a companhia de uma amiguinha… só para não enlouquecer.

Eu virei praticamente zeladora da minha sala de aula:

“Cuida do meu diário?”

“Cuida do meu relógio?”

“Cuida da minha bomba caseira?”

Enquanto formulava este post, eu fiz uma pergunta: Porque estas pessoas teimavam em fazer essa “separação”? Seria medo? Seria o tal do preconceito? Seria inveja dos meus cabelos então mega lisos? Nenhuma destas alternativas.

Foi aí que fiz a descoberta:  o nome disso é segregação disfarçada de proteção.

Ahá…Na mosca!

Não sabe “o que fazer” com o aluno ou o local não oferece o mínimo de acessibilidade para sua autonomia? Vamos “protegê-lo“. Tapetinho da disciplina nele! É aí que a segregação se traveste de proteção e sai rodopiando por aí. 

E há diferenças entre EXCLUSÃO, SEGREGAÇÃO, INTEGRAÇÃO e a pretendida INCLUSÃO:

Didático!

Tem muito material a este respeito por aí. Mas sejamos concisos:

Exclusão é o que podemos chamar de “nem vem que não tem”.

Integração é a formação de um, digamos… GUETO.

Segregação é passar o intervalo da sala, já que tem uma escada no meio do caminho.

 

Eu sei, esta consciência é extremamente nova… mas que estas histórias não mais se repitam.

Gzuiz viu isso, ‘tia’!

Quem não tem elevador…

Ah, o elevador… Essa obra-prima da vida moderna! Facilita nossa vida de tal maneira que, muitas vezes, nem percebemos sua importância em nossa rotina.

Além de tudo, sempre podemos desfrutar do repertório do Kenny G. e ouvir barulhos de correntes.

Mas… e quando ele falta? Quero dizer: como qualquer “máquina”, deteriora, e precisa de manutenção periódica. E contra isso, não há o que ser feito.

Nem no fantástico mundo da 7a arte isto tem solução:

Mas quando a manutenção é “eterna” e só há um elevador no ambiente?

Juro que essa imagem é do Google

Quando a paciência chega no limite, é claro que penso que é feito de propósito.

“Vamos deixar em ‘manutenção’ por mais uma semana!”

GRRR!!

Alguns dias atrás, uma leitora mandou essa imagem para o blog:

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Esse elevador fica em uma agência bancária com nome de recipiente em Joinville. Ao perceber que uma pessoa idosa estava com muita dificuldade para descer as escadas, vislumbrou o elevador “interditado”. Não sabemos se esta situação é momentânea ou está assim há vários meses.

A situação é corriqueira, e é uma pena, pois não se mensura a autonomia que um elevador pode trazer à vida de alguém com alguma restrição física. Sem um elevador, uma escada vira uma prova de rapel, cuja escalada, muitas vezes, sem ajuda de outrem, é impossível.

Elevador não é luxo! É uma necessidade.

Se você estiver frente a uma situação desta, não hesite: ofereça ajuda (sem grandes aparatos, please!) e, se possível, verifique o porquê da manutenção no único acesso ao piso superior. Em alguns estabelecimentos, pelo que sei, a Ouvidoria é o canal adequado a estas situações. Não deixe de despertar a Vera Verão que existe em você. 😉

E quando não tem jeito, mesmo? Aí o negócio é usar a criatividade e improvisar! Nada como o jeitinho brasileiro!

Lá na firrrrma, quando o elevador mais próximo da porta entra em manutenção, eu, with a little help from my friends, realizo o sonho de qualquer baixinho da Xuxa que cresceu frustrado: dou um digno rolé pelos corredores, até o próximo elevador, a bordo de uma cadeira office. É tão…tão #OLadoBomDaVida…!

Esse brinquedo não faz looping

Sobe? Desce? Pra frente!

Símbolos

Sabe aquele símbolo azul com o desenho de um zé-palito sentado em uma cadeira de rodas?

É o SÍMBOLO INTERNACIONAL DE ACESSO, tendo, portanto, o mesmo significado aqui em Joinville, em Tóquio e em todos os cantos do planeta Terra.

É um símbolo muito conhecido pelo seu significado, mas muita gente ainda vê pintado em um estacionamento e entende como “Vaga para 1 minutinho”.

O símbolo foi adotado em 1969 pela Rehabilitation International (RI), ONG com status de órgão consultivo da ONU e sediada em Nova York.

O desenho não poderia abrir margem para outras interpretações. Deveria ter um significado facilmente reconhecível e deveria ser identificado e destacado mesmo a uma certa distância.

Então Susanne Koefoed, da Dinamarca, criou o tal símbolo:

Que era preto e branco e... não tinha cabeça

Que era preto e branco e… não tinha cabeça

Mas, por sugestão da própria Rehabilitation International, uma cabeça foi acrescentada ao desenho, restando no símbolo adotado pela ONU, que é válido em Joinville, em Tóquio e em todos os cantos do planeta Terra:

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Com cabeça

Ocorre que, ativistas têm se posicionado contrários ao atual símbolo, dito “ultrapassado”, que mostra um indivíduo inerte e ofuscado pela “baita” cadeira de rodas.

É, os tempos são outros. Tem até vilã de novela sentada em cadeira de rodas.

Aí entrou em cena Sara Hendren, do Acessible Icon, que criou o desenho de um indivíduo capaz, ativo, independente e engajado:

Britney curtiu isso.

O novo desenho já foi adotado na cidade de Nova York:

E até na Índia!

Tunak tunak

Já vou mandar fazer o adesivo para meu carro. Vamos ver qual será a reação por aqui. 😀

É claro que um simples símbolo não vai, magicamente, contribuir para a acessibilidade – que é a única coisa que impede a real liberdade -, mas, se os tempos mudaram e, aquele indivíduo robótico do atual símbolo não representa mais ninguém, porque não mudar?

Segundo o blog do Marcelo Rubens Paiva, começou, no Brasil, uma campanha para atualização do símbolo que representa o idoso (pessoa maior de 60 anos) que, de igual maneira, tem preferência de estacionamento próximo da porta.

Pretendido novo símbolo

Eu entendo que disputar rosas no show do Rei desgasta qualquer coluna, mas por acaso você conhece alguém, no auge de seus 60 anos (“o novo 40”), do jeito que o atual símbolo de idoso representa?

Bruce Springsteen, 64 anos, no último Rock in Rio – “Essa imagem não me representa.”

Novos tempos, novos símbolos.